4.4.18

No mundo encantado da Ilustração | Honor C. Appleton { #3 }



Ao contrário do que aconteceu com as outras duas ilustradoras de que já falei aqui, sobre Honor Charlotte Appleton encontrei muito pouca informação. Apenas uma pequena biografia e nem uma única fotografia ou retrato pessoal pintado. 

Sempre que me cruzava com a sua obra, o que mais me atraía na sua estética, e que por isso me levou a ter curiosidade em conhecer melhor a sua história, era o facto de a maioria das suas ilustrações terem quartos de brinquedos como pano de fundo, num universo onde as bonecas e outras personagens assumem um papel ativo, ao melhor estilo do nosso imaginário infantil. Quem nunca falou com a sua boneca preferida, ou não fez festas e casamentos entre os diversos bonecos que moravam nas prateleiras e estantes do quarto?

Mas a verdade é que, devido à escassez de documentação, acabei por não encontrar uma razão especifica para este tema constante do seu trabalho. Resta-me pensar e concluir que essa sua fase de vida foi de tal forma marcante que a influenciou para o resto da vida. Por outro lado, uma das suas mais importantes obras foi a colaboração como ilustradora dos livros da aventureira Josephine e dos seus brinquedos. Isso, só por si, pode ser suficiente para justificar tal acervo.








Honor C. Appleton nasceu em Brighton, Inglaterra, a 4 de fevereiro de 1879.

O que se sabe sobre a génese do seu trabalho como ilustradora é que a sua formação passou pela Escola de Kensington,  pela Frank Calderon's School of Animal Painting e  pela Royal Academy of Arts.

Fortemente influenciada por ilustradores seus contemporâneos como Arthur Rackham , Heath Robinson, Kate Greenaway e Jessie Willcox Smith, Appleton destacou-se num estilo próprio e muito facilmente identificável, pela técnica da aguarela. 

No fim do primeiro ano na Royal Academy, em 1902, publicou o seu primeiro livro de ilustrações com o título "The Bad Mrs Ginger". A esse, e ao longo da sua vida, seguiram-se mais de cento e cinquenta livros ilustrados por si.

A mais conhecida das suas primeiras ilustrações foi criada precisamente para a coleção "Josephine" - as aventuras de uma menina e da sua família de bonecos e as suas façanhas. Eram imagens sobre brincadeiras infantis, estruturadas, intensas e cheias de detalhes, mas com a suavidade conferida pela aguarela, que davam vida aos textos de HC Cradock (1863 - 1941).


A primeira grande ruptura de Appleton no mundo da ilustração foi conseguida com seus desenhos para as Canções de Inocência de William Blake (1910), facto que contribuiu  para sua reputação como ilustradora de primeira classe.



As suas obras mais famosas incluem o "Our Nursery Rhyme Book" (1912), de Charles Perrault (1919) e os contos de Hans Christian Andersen (1922).



Entre 1930 e 1940 a sua técnica desenvolveu-se e Appleton começou a afastar-se das publicações infantis e começou a focar-se nos grandes clássicos da literatura. Nesse contexto, uma boa parte do seu trabalho foi desenvolvido para a "George G. Harrap and Company", uma editora de livros de especialidade, com sede em Londres e Bombaim, entretanto desaparecida.

A famosa ilustradora adorava o sul de Inglaterra, o que a fez permanecer perto de Brighton, em Hove, durante toda a sua vida, cidade de onde só se ausentava em viagens negócios.

Appleton morreu com 71 anos, a 31 de dezembro de 1951. Nessa época, o seu trabalho era de tal forma conhecido e admirado, que a Hove Public Library realizou uma cerimónia de homenagem no ano seguinte.


9.2.18

Viena em três dias


Foi o mais inesperado e querido presente de aniversário dos últimos anos. Em duas horas, escolhemos o voo, o hotel e a data. A ideia era proporcionar-me um passeio até um destino frio, onde fosse previsível haver neve ou nevar, que eu ainda não conhecesse e gostasse de visitar. Para alguém que, como ele, só gosta de calor e mar, foi uma espécie de demostração de amor à prova de bala. Foi assim que em Janeiro rumámos a Viena de Áustria num fim de semana prolongado.

Nem toda a gente viaja ou gosta de viajar pelos mesmos motivos. Ainda assim, para um considerável numero de pessoas, creio que uma boa parte do gosto de viajar reside no interesse em observar, descobrir e desfrutar das diferenças que cada destino proporciona. Resumidamente, do prazer de beber da cultura de cada povo e de comungar, por uns dias da sua forma de estar. Por muito que se leia e veja, nada como o conhecimento empírico para podermos retirar as nossas conclusões. 

E, nesse aspecto, confesso que Viena foi das cidades que até hoje mais me surpreendeu, pela ideia pré-concebida que levava comigo. Clichés criados na minha cabeça, de certa forma como subproduto de filmes que vi.

Como sempre, a forma como adjetivamos as conclusões que resultam das nossas avaliações é altamente subjetiva. Valem o que valem. Ou seja, muito pouco. Mas são as mais importantes, porque são as nossas. É por isso que partilho hoje aqui o que senti nesta visita.



Uma das características mais apontadas na cultura Vienense é a do culto dos cafés. Confirma-se. A cidade está povoada por eles a cada esquina. Quase todos imponentes, históricos, magistralmente decorados e cheios de gente, com os Vienenses à cabeça da lista. É fácil compreender porquê. Numa cidade que já foi o centro de um império e que durante séculos foi palco dos mais diversos intelectuais e artistas, os cafés eram um marco importantíssimo na vida social. A vantagem e o mérito foi que tudo isso se conservou até hoje. Um chocolate quente e um apfelstrudel com molho de baunilha são absolutamente obrigatórios, a não ser que não se goste ou se esteja em rigorosa dieta!

Outro lugar que parece incontornável é a Ópera de Viena. Compreende-se porquê, depois de visitar o edifício por dentro. E mesmo que não se assistisse a uma ópera, já valeria a pena, mas o facto é que só é possível fazê-lo com bilhetes para assistir.

Curioso foi ficar a saber que, na época da sua construção - encomendada pelo Imperador Francisco José - este edifício que hoje consideramos uma obra de arte foi fortemente criticado. De tal forma que um dos arquitetos se suicidou depois da inauguração. Tantas considerações acerca das pessoas e do ego haveria a fazer, a este propósito... Que estranho é pensar que, com tanto que a história tem para nos ensinar, continuamos a cometer os mesmos erros. 


Viena é acima de tudo uma cidade onde a força de um poderoso e riquíssimo império se exibe com pompa e circunstância ate hoje. Os inúmeros palácios e edifícios imperiais, escrupulosamente mantidos e cuidados, fazem-nos facilmente sentir numa viagem no tempo. Quando a isso se junta a sorte de ser brindado com um suave mas abundante nevão, tudo se torna mágico. Pelo menos para mim, uma incorrigível romântica que ainda hoje sabe de cor praticamente toda a banda sonora de Música no Coração. Mas foi exatamente por essa fortíssima referência da minha infância que fui surpreendida por algumas constatações. Imaginava eu que os austríacos eram todos altos e espadaúdos, lindos e loiros. Ora, pois, nada mais longe da verdade! Para ser sincera, achei-os absolutamente sem graça e sem identidade. Cinzentões, apagados, atarracados, até, para aquilo que estamos habituados nos países que habitam o topo do mapa da Europa. Em comparação com os holandeses que povoam Amesterdão, cheios de raça, pinta e bom gosto, a anos-luz!

Outra coisa que me surpreendeu de sobremaneira foi o comércio. De uma pobreza franciscana a toda à prova. Entre as marcas que já existem por toda a parte e que tornam as ruas de todas as capitais europeias num triste cenário de mais do mesmo, passando pelas lojas de souvenires com o pior, mais piroso e plástico made in china (damos 20 a 0 neste campo, no nosso burgo! ) e acabando nas lojas/marcas locais sem graça ou apelo estético possível, confesso que esta viagem foi um verdadeiro descanso. Uma poupança sem espinhas! Uns chocolatinhos para a família e, e!... 

Talvez levasse acomodadas, na bagagem da minha memória,  demasiadas referências do Tirol. Suspensórios e chapéus com penas e fitas de gorgorão com edelweiss; coletes e calças bordadas... mais cor, mais música, mais cantoria... Mas a verdade é que o facto de não conseguir encontrar um único vestígio disso em parte nenhuma foi não só surpreendente como de certa forma triste. Nada que por si tenha suplantado a felicidade de poder desfrutar de tudo o que desfrutámos numa cidade linda e evoluída como Viena. 

Sinto-me uma privilegiada e muito grata por este presente fantástico que recebi. Obrigada, meu querido Vasco, por isso.


Um último comentário. Apesar de ter levado a máquina fotográfica comigo, desta vez optei por me restringir ao telemóvel para registar os momentos, os lugares e as memórias que gosto de guardar para revisitar sempre que apetece recordar dias felizes. O que mais me impressionou, depois de rever e editar apenas em aplicações do telemóvel as imagens, foi a qualidade já se consegue ter a este nível. Claro que a definição não é a mesma de uma máquina, mas a nitidez que já é possível obter, mesmo quando se ampliam à escala que ampliei aqui, é a prova de que muito provavelmente, num futuro próximo, as máquinas vão ter muito pouca serventia...